12 de maio de 2009

O Japão demorou a envelhecer

Se conseguisse destravar a poupança dos idosos o país colocaria uma fortuna de yenes em circulação e sairia muito mais rápido da recessão
O envelhecimento populacional é o pano de fundo de quase todas as questões econômicas da atualidade. O grande desafio contemporâneo é construir uma economia da longevidade voltada a atender às demandas da nova dinâmica demográfica do planeta. Muitas vezes o envelhecimento nem sequer é citado em análises. Mas na crise atual este fenômeno emerge com força. Em todo o mundo, apareceu em forma de risco à sobrevivência dos fundos de pensão. Nos Estados Unidos, também ganhou materialidade com o caos no sistema de saúde. O melhor exemplo, porém, tem sido o impacto da crise no Japão.


De acordo com o FMI, o país assistirá a sua economia recuar 6,2% em 2009. Este resultado devolve a segunda economia do planeta ao seu tamanho de 1993. A crise deve ser mais grave por lá porque, como se sabe, mesmo em condições econômicas normais, os japoneses são mais propensos a poupar. Embora a taxa de juros seja de 0,1% ao ano, a reação do consumo é nula. E por quê? Talvez existam outras respostas. Mas a principal delas é que o país demorou para construir um sistema de seguridade social, embora já estivesse diante de um processo de envelhecimento populacional bastante avançado.
Se conseguisse destravar a poupança dos idosos, ao menos transferir renda dos mais velhos para os mais jovens, o Japão colocaria uma fortuna de ienes em circulação na economia e sairia muito mais rápido da recessão. O Estado japonês, porém, ao longo de décadas, legou a responsabilidade do risco velhice exclusivamente para as famílias. A velhice dizia respeito ao indivíduo e essa condição ajudou a cristalizar na sociedade japonesa a cultura da precaução. O efeito psicológico daqueles anos, hoje, é quase impossível de ser quebrado. Passou de geração a geração. Entre os países industrializados, o Japão foi o último a implementar um sistema de seguridade social. Apenas em 1961 foi estabelecido o primeiro plano nacional de aposentadoria e de saúde públicos financiado por contribuição obrigatória. Até então, o cuidado com a população idosa recaía sempre sobre a família.
A população japonesa guarda cinco vezes mais do que a renda disponível. É a mais alta poupança interna do G-8, o grupo dos oito países mais ricos do mundo. Mais de três quintos desta poupança estão trancados nas contas bancárias dos japoneses com mais de 65 anos de idade - 21,8% da população, constituindo-se a sociedade mais envelhecida do planeta. Só para se ter uma ideia, o Ministério da Agricultura estima que 70% dos três milhões de agricultores japoneses tenham mais de 60 anos.
A atual crise encontra o sistema de proteção social para a população idosa num momento de transição de um modelo baseado totalmente na família para um de cuidado compartilhado com o Estado. Essa "estatização" da velhice, no entanto, ainda levanta suspeitas e incertezas, sobretudo na capacidade de gestão do sistema de aposentadorias. Há três pilares no sistema de previdência social japonês: o beneficio básico e universal, o beneficio proporcional e o voluntário (fundos de pensão). A cada cinco anos, a dinâmica demográfica obriga o governo a promover uma reforma do sistema. Menos porque a expectativa de vida média é de 82,5 anos (79 para homens e 85,9 para mulheres), a maior do mundo, e mais porque persiste uma taxa de fecundidade de 1,34 filhos por mulher - uma das mais baixas do planeta.
Neste momento em que o Brasil está sendo saudado pelo mundo por atravessar o pântano financeiro sem ser engolido pelos jacarés, é oportuna uma reflexão sobre o exemplo japonês. Nossa economia está resistindo por estar envolta em uma rede social - tão atacada e culpabilizada nos últimos anos. Pela primeira vez, percebe-se a significância de um mercado interno. No entanto, quando uma sociedade vive um processo de envelhecimento populacional moderado avançado, como passa o Brasil, qualquer alteração neste pacto intergeracional que possa suscitar incertezas deve ser muito bem avaliado. Sob pena de, mais tarde, a economia vir a cobrar mais esta fatura.
Fonte: Isto É Dinheiro-Jorge Felix

Sobre o Blogueiro:
Rogério Ubine é carteiro na cidade de Ribeirão Preto, Diretor Nacional da FENTECT e Vice Presidente do Comitê Postal da UNI-AMÉRICAS

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