Os fundos de pensão fechados começam a traçar a estratégia para ampliar a fatia da renda variável no portfólio de investimentos. Por trás desse movimento está a queda da taxa de juros básica da economia, que ameaça o cumprimento das metas atuariais e, consequentemente, a capacidade dos fundos em pagar as aposentadorias no futuro. Projetos de infraestrutura nas áreas de energia e transportes, fundos de investimentos em crédito e em participações acionárias (FIDC e FIP) estão no catálogo de opções que os fundos de pensão estão avaliando para ampliar o portfólio de renda variável.
Grandes fundações como Petros e Valia, dos funcionários da Petrobras e da Vale do Rio Doce, vão priorizar os FIP em projetos de infraestrutura. Com patrimônio de cerca de R$ 40 bilhões, o Petros poderá aumentar a participação da renda variável na carteira de investimentos dos atuais 30% para 35% a 40%. As usinas hidrelétricas de Jirau e Belo Monte e o Trem Bala estão nos planos, disse o presidente da entidade, Wagner Pinheiro. Além de fundos de "private equity", de governança e infraestrutura, a Valia (R$ 11 bilhões em patrimônio) começou a apostar mais no mercado imobiliário, disse Eustáquio Lott, presidente do fundo. Entidades como Fachesf (R$ 4 bilhões) e Real Grandeza (R$ 7 bilhões) têm estratégias distintas. A Fachesf está olhando mais para a renda fixa em crédito privado, enquanto a Real Grandeza quer focar em rentabilidade e liquidez, daí apontar para o investimento em ações via bolsa.
A estratégia da Petros para tomar mais risco é "fazer uma combinação entre aplicação direta em bolsa de valores, ampliando a participação das ações no portfólio, e uma parcela via FIP (Fundos de Investimentos em Participações)", definiu Pinheiro. A fundação não pretende desinvestir em nenhuma de suas aplicações nas companhias em que mantém blocos de controle. "O Brasil vai num processo de crescimento econômico sustentado e todas as empresas estão crescendo", justifica Pinheiro, mantendo em aberto as empresas e os setores em que poderá investir o dinheiro da fundação. Como regra geral, acrescenta que hoje olha com prioridade os setores mais "afeitos aos fundos de pensão", ou seja, que mantêm fluxo de caixa constante e boa qualidade de crédito. A Petros tem investimentos em 26 fundos de "private equity" que totalizam R$ 9,3 bilhões de capital total, alguns ainda em fase de captação, informou Luis Carlos Afonso, diretor financeiro e de investimentos da fundação.
O comprometimento da Petros no capital destes fundos é 24% ou R$ 2,2 bilhões. Até agora foram aplicados R$ 3,36 bilhões, dos quais a fundação participou com R$ 770 milhões. A projeção de retorno dos fundos - que aplicam em 72 empresas - é de 19% reais.
Eustaquio Lott, presidente da Valia, conta que a fundação já fez um primeiro movimento no sentido de ampliar a renda variável na carteira, de 20% para 30%, a partir de duas boas oportunidades surgidas do ano passado para cá. A primeira foi a derrocada dos preços das ações nas bolsas por causa da crise. A Valia aproveitou para investir R$ 250 milhões na compra de ações de diversas empresas e setores. "Só este investimento valorizou-se 50% até agora", disse Lott. Outra oportunidade foi a fusão da Perdigão com a Sadia, que criou a Brazil Food. A Valia, que é parte de um grupo de fundos que está no bloco de controle da Perdigão, pagou R$ 350 milhões para subscrever ações da nova empresa e manter a posição acionária.
"A queda dos juros nos leva necessariamente a assumir um risco maior na busca de rentabilidade para cumprir a meta", afirmou Lott ao Valor, referindo-se à meta atuarial do fundo, que é atingir rentabilidade de 6% ao ano mais a variação do INPC. Um dos setores em que a Valia resolveu ampliar suas apostas é no imobiliário. Recentemente, a entidade investiu R$ 50 milhões na compra de metade de uma das três torres de escritórios comerciais, num total de 23 mil metros quadrados, no Conjunto Cidade Jardim, em São Paulo. Por outro lado, vendeu um pacote de ações correspondentes a 15% do capital do Metrô do Rio de Janeiro para a Invepar. "Foi uma boa oportunidade de venda", explicou Lott.
Na busca de maior rentabilidade, a Fachesf, fundo de pensão dos funcionários da Companhia Hidro Elétrica do Rio São Francisco, está promovendo algumas importantes alterações na estratégia de investimentos da carteira. Primeiro, está analisando "alguma migração" da carteira de renda fixa, do crédito público para o privado, através da aquisição de cotas de fundos de securitização de recebíveis (FIDC) e debêntures, disse Luiz da Penha Souza da Silva, gerente de investimentos da entidade. Com um patrimônio líquido de R$ 4 bilhões, o portfólio da Fachesf está alocado 70% em renda fixa, 20% em renda variável e 10% em imóveis e empréstimos a participantes.
Dentro desta parcela de 10%, os estatutos da fundação autorizam a aplicação de até 5% em fundos de participação e projetos de "venture capital". Souza e Silva disse que os projetos existentes hoje na carteira da fundação cumprem apenas 2% e a ideia é procurar FIP e projetos de infraestrutura para atingir os 5% permitidos. Outra importante mudança é passar a buscar papéis de renda fixa indexados a índices de preços e não mais a CDI (taxa de juros). "É uma mudança significativa que estamos buscando para manter o casamento dos ativos com o passivo atuarial e por isso vamos buscar papéis atrelados a índices de preços, preferencialmente IPCA", afirmou Silva. A meta atuarial da Fachesf, que é IGP-M mais 6% ao ano, também está por ser revista, trocando o índice de preços geral do mercado pelo que mede a inflação ampla, mantendo a taxa de juros.
Na fundação Real Grandeza, dos funcionários das estatais Furnas, Eletrobrás e Eletronuclear, a estratégia é priorizar a rentabilidade e a liquidez. Está direcionada neste sentido a porção renda variável do plano de benefícios definidos (BD), que concentra quase a totalidade (96%) do patrimônio da fundação. Para a pequena porção restante, dos planos de contribuição definida (CD), dos funcionários mais jovens e ainda na ativa, a fundação buscará um pouco mais de rentabilidade e risco, diz o diretor-presidente Sergio Wilson Ferraz Fontes. Para a parcela de renda variável do BD, que é de no máximo 17% da carteira, Fontes diz que não haverá novos investimentos, 90% dos recursos estão aplicados em 25 das ações "blue chips" da bolsa, seguindo o IBX-100 como benchmark. "No CD, a variável rentabilidade é mais importante", diz Fontes, explicando que na administração desta carteira os gestores procuram "concentrar todo o esforço e capacidade de análise para extrair as melhores condições".
Com administração conservadora, a Real Grandeza tampouco procura expansão em participações acionárias. Ao contrário: vendeu sua parte no capital da Perdigão e na Acesita e está estudando a venda do controle da CRT (concessão da rodovia Rio-Teresópolis), que detém através de debêntures. "A ideia é desinvestir em participações", diz Fontes. A análise da entidade é que blocos de controle têm pouca liquidez e trazem custos de participação como gestor.
Fonte:Valor
2 de outubro de 2009
Fundos de pensão buscam opções de investimento
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