(enviado por Eliane Seratiuk Flores - professora, de Curitiba/PR)
Em meados dos anos 70 do nosso século, dois caciques da nação xavante vieram, de avião, visitar a cidade de São Paulo. Dormiram em um hotel e, no dia seguinte, foram levados para passear. Caminharam pela Av. Paulista, visitaram um shopping center (só havia dois naquele tempo) e, por fim, foram conhecer um dos prédios históricos paulistanos na região central que abriga um imenso mercado municipal (CEASA).
O cenário para eles era deslumbrante: pilhas e pilhas de alface, de cenoura, de tomate, de laranja, etc. De repente, um deles viu algo que nenhum e nenhuma de nós veria, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse: O que ele está fazendo? "Ele" era um menino de uns 10 anos de idade negro, pobre (nós o saberíamos pelas vestimentas), que no chão catava verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico. A resposta foi óbvia: Ele está pegando comida.
- “Não entendi” – disse o cacique. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas?
Outra resposta evidente:
- “Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro”.
Insiste o xavante (já irritante, pois está escavando onde a injustiça sangra):
- E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado:
- “Porque ele é criança!”
Torna o índio:
- “E o pai dele? Tem dinheiro?”
Outra obviedade:
- “Não, não tem!”
Questão final:
- “Então, não entendi de novo. Por que você, que é grande, tem dinheiro, e o pai do menino, que também é, não tem?”
A única saída possível foi responder:
- PORQUE AQUI É ASSIM!
Os índios foram embora (daquele lugar e da cidade), indignados, sem compreenderem essa situação tão “normal”: se uma criança tem fome e não tem dinheiro, come comida estragada. Para que pudessem aceitar mais tranquilamente o "porque aqui é assim" teriam que ter sido formados e formadores da nossa sociedade, frequentando nossas instituições sociais e, também, nossas escolas; teriam que ter sido civilizados.
A intenção deste relato não é moralista nem deseja propor um modelo indígena de existência; é ressaltar aquela que, no nosso entender, é a maior tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre epistemologia e a política: o esforço de destruição do porque aqui é assim.
A ruptura do porque aqui é assim principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que apresenta ser invencível, tamanhos são os obstáculos cotidianos com os quais nos deparamos.
É preciso, em Educação, reinventar, em conjunto, uma ética da rebeldia, uma ética que reafirme nossa possibilidade de dizer não e que valorize a inconformidade docente.
Não é mero acaso que a primeira palavra, de fato, que um ser humano aprende a dizer e a entender é o não. Seja oral ou gestualmente, o não é a fundação a partir da qual se constrói nossa principal característica: a liberdade, a capacidade de ultrapassar as determinações da natureza e das situações presumidamente limitantes. Só quem é capaz de dizer não pode dizer sim, isto é, pode escolher e acatar deliberadamente o curso das circunstâncias e das exigências externas e internas.
Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre de discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.
A educação e a escola são os lugares nos quais podemos dizer e exercer mais fortemente o nosso não. Não à miséria; não a injustiça; não à contradição humano versus humano, não à ciência exclusivista, não ao poder opressor.
Afinal de contas, por que somos educadores e educadoras (aí, o autor inclui sua pessoa porque também é um educador)? Por que dedicarmos toda existência a essa atividade cansativa, econômica e socialmente prejudicada e desvalorizada, entremeada de percalços?
Tenho uma suspeita: por causa da paixão. Paixão pelo quê? Por ganhar pouco, trabalhar muito, e toda noite querer desistir, e no dia seguinte, de manhãzinha, estar, de novo, na escola? Vinte, trinta (aposenta e volta) quarenta ou mais anos na profissão, alimentando um corpo docente nas reuniões movidas a café, chá e bolacha?
Não. Paixão por uma idéia irrecusável: gente foi feita para ser feliz! E esse é nosso trabalho, não só nosso, mas também nosso. Paixão pela inconformidade de as coisas serem como são; paixão pela derrota da desesperança; paixão pela idéia de, procurando tornar as pessoas melhores, melhorar a si mesmo ou mesma; paixão, em suma, pelo futuro.
Nosso negócio é o futuro... Cada um e cada uma de nós tem contato diariamente com o futuro: muitos e muitos, quando começaram tinham 16 anos de idade, e os alunos 7; fizemos 20, eles chegaram com 7; atingimos os 30, eles estavam com 7; alcançamos 40, e eles 7, etc....
Cada dia, encontramos o que há de mais novo na humanidade, porque também o somos.
Desse ponto de vista, é absurda a idéia que entende que alguém, quanto mais vive, mais velho fica. Para alguém, quanto mais vivesse mais velho se tornasse, teríamos que ter nascido prontos e irmos gastando. Ora, isso acontece com carros, fogões ou sapatos; com humanos e humanas, não. Nascemos não prontos e vamos nos fazendo; eu, neste momento, sou o mais novo de mim, minha mais nova edição (revista e ampliada) e, se o critério para a velhice é o tempo, o mais velho de mim está no passado.
Nosso tempo, o de educadores, é este hoje em que já se, em gestação, o amanhã. Não um qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual não possuímos certezas, mas que sabemos possibilidades.
Pode parecer romântico (até piegas); no entanto, é dessa utopia que não nos podemos apartar, sob a pena de perdermos o sentido da humanidade.
Fonte:texto adaptado – de Mário Sérgio Cortella, Mario Sergio Cortella é filósofo, mestre e doutor em Educação
Em meados dos anos 70 do nosso século, dois caciques da nação xavante vieram, de avião, visitar a cidade de São Paulo. Dormiram em um hotel e, no dia seguinte, foram levados para passear. Caminharam pela Av. Paulista, visitaram um shopping center (só havia dois naquele tempo) e, por fim, foram conhecer um dos prédios históricos paulistanos na região central que abriga um imenso mercado municipal (CEASA).
O cenário para eles era deslumbrante: pilhas e pilhas de alface, de cenoura, de tomate, de laranja, etc. De repente, um deles viu algo que nenhum e nenhuma de nós veria, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse: O que ele está fazendo? "Ele" era um menino de uns 10 anos de idade negro, pobre (nós o saberíamos pelas vestimentas), que no chão catava verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico. A resposta foi óbvia: Ele está pegando comida.
- “Não entendi” – disse o cacique. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas?
Outra resposta evidente:
- “Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro”.
Insiste o xavante (já irritante, pois está escavando onde a injustiça sangra):
- E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado:
- “Porque ele é criança!”
Torna o índio:
- “E o pai dele? Tem dinheiro?”
Outra obviedade:
- “Não, não tem!”
Questão final:
- “Então, não entendi de novo. Por que você, que é grande, tem dinheiro, e o pai do menino, que também é, não tem?”
A única saída possível foi responder:
- PORQUE AQUI É ASSIM!
Os índios foram embora (daquele lugar e da cidade), indignados, sem compreenderem essa situação tão “normal”: se uma criança tem fome e não tem dinheiro, come comida estragada. Para que pudessem aceitar mais tranquilamente o "porque aqui é assim" teriam que ter sido formados e formadores da nossa sociedade, frequentando nossas instituições sociais e, também, nossas escolas; teriam que ter sido civilizados.
A intenção deste relato não é moralista nem deseja propor um modelo indígena de existência; é ressaltar aquela que, no nosso entender, é a maior tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre epistemologia e a política: o esforço de destruição do porque aqui é assim.
A ruptura do porque aqui é assim principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que apresenta ser invencível, tamanhos são os obstáculos cotidianos com os quais nos deparamos.
É preciso, em Educação, reinventar, em conjunto, uma ética da rebeldia, uma ética que reafirme nossa possibilidade de dizer não e que valorize a inconformidade docente.
Não é mero acaso que a primeira palavra, de fato, que um ser humano aprende a dizer e a entender é o não. Seja oral ou gestualmente, o não é a fundação a partir da qual se constrói nossa principal característica: a liberdade, a capacidade de ultrapassar as determinações da natureza e das situações presumidamente limitantes. Só quem é capaz de dizer não pode dizer sim, isto é, pode escolher e acatar deliberadamente o curso das circunstâncias e das exigências externas e internas.
Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre de discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.
A educação e a escola são os lugares nos quais podemos dizer e exercer mais fortemente o nosso não. Não à miséria; não a injustiça; não à contradição humano versus humano, não à ciência exclusivista, não ao poder opressor.
Afinal de contas, por que somos educadores e educadoras (aí, o autor inclui sua pessoa porque também é um educador)? Por que dedicarmos toda existência a essa atividade cansativa, econômica e socialmente prejudicada e desvalorizada, entremeada de percalços?
Tenho uma suspeita: por causa da paixão. Paixão pelo quê? Por ganhar pouco, trabalhar muito, e toda noite querer desistir, e no dia seguinte, de manhãzinha, estar, de novo, na escola? Vinte, trinta (aposenta e volta) quarenta ou mais anos na profissão, alimentando um corpo docente nas reuniões movidas a café, chá e bolacha?
Não. Paixão por uma idéia irrecusável: gente foi feita para ser feliz! E esse é nosso trabalho, não só nosso, mas também nosso. Paixão pela inconformidade de as coisas serem como são; paixão pela derrota da desesperança; paixão pela idéia de, procurando tornar as pessoas melhores, melhorar a si mesmo ou mesma; paixão, em suma, pelo futuro.
Nosso negócio é o futuro... Cada um e cada uma de nós tem contato diariamente com o futuro: muitos e muitos, quando começaram tinham 16 anos de idade, e os alunos 7; fizemos 20, eles chegaram com 7; atingimos os 30, eles estavam com 7; alcançamos 40, e eles 7, etc....
Cada dia, encontramos o que há de mais novo na humanidade, porque também o somos.
Desse ponto de vista, é absurda a idéia que entende que alguém, quanto mais vive, mais velho fica. Para alguém, quanto mais vivesse mais velho se tornasse, teríamos que ter nascido prontos e irmos gastando. Ora, isso acontece com carros, fogões ou sapatos; com humanos e humanas, não. Nascemos não prontos e vamos nos fazendo; eu, neste momento, sou o mais novo de mim, minha mais nova edição (revista e ampliada) e, se o critério para a velhice é o tempo, o mais velho de mim está no passado.
Nosso tempo, o de educadores, é este hoje em que já se, em gestação, o amanhã. Não um qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual não possuímos certezas, mas que sabemos possibilidades.
Pode parecer romântico (até piegas); no entanto, é dessa utopia que não nos podemos apartar, sob a pena de perdermos o sentido da humanidade.
Fonte:texto adaptado – de Mário Sérgio Cortella, Mario Sergio Cortella é filósofo, mestre e doutor em Educação

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