Enquanto os estrangeiros ingressam na bolsa brasileira com voracidade não observada desde a época que o país foi promovido a "investment grade" pelas agências de classificação de risco, os investidores locais assistem ao movimento da plateia. No ano, os fundos de ações têm resgates de R$ 1,9 bilhão se desconsiderar a transformação de participações em empresas da Previ (a caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil) numa carteira fechada
E o mapa de participação de mercado da Bovespa por categoria de investidor no ano confirma a ausência de compradores com sotaque nacional. Só as pessoas físicas tiraram mais de R$ 3 bilhões do mercado de janeiro para cá, ao tempo que o capital externo trouxe R$ 5,1 bilhões líquidos até o fim de abril (R$ 3,8 bilhões apenas no mês passado). Maio começou e o Ibovespa já acumula alta de 8,9% em apenas três pregões, com uma média diária de mais de R$ 6,5 bilhões. São valores que remetem aos volumes pré-grau de investimento. De janeiro para cá, o índice galgou quase 14 mil pontos e exibe uma valorização de 37,15%. Fechou ontem aos 51.499 mil pontos, nova marca recorde em 2009. O giro foi de R$ 7,5 bilhões.
No afã de multiplicar o capital que encolheu sobremaneira desde a quebra do Lehman Brothers, em setembro, gestores de portfólios globais estão buscando quais mercados e ativos podem fazer a diferença após a debacle generalizada. Nesse contexto, o Brasil tem sido um destino contumaz entre os emergentes. Só que tamanha atratividade tem um custo: a distorção dos preços, com avaliações que podem extrapolar os fundamentos.
"A performance é por conta do fluxo de um investidor pouco técnico, que não está medindo o valor das empresas locais", pondera o diretor-geral da Schroders Brasil, Beto Scretas. "Eu imaginava que, depois do tombo do segundo semestre do ano passado ter abalado as estruturas do mercado, o comportamento passasse a ser mais racional, mas o que se vê, sete meses depois, é que eles estão comprando como se não houvesse amanhã."
Na visão do executivo, nada no mundo dos fundamentos explica o que houve, por exemplo, com as ações de setores como construção civil e de papel e celulose ou mesmo com a OGX, a companhia de petróleo e gás de Eike Batista, que captou R$ 7,5 bilhões no ano passado, mas que ainda não passa de um plano de negócios. No ano, os papéis acumulam alta de mais de 65%.
Para Scretas, ter chegado a maio com um Ibovespa esbarrando nos 52 mil pontos é o mesmo que apagar 2009 do calendário e olhar quais preços seriam condizentes para a promessa de recuperação que 2010 traz. "Acredito nisso, mas é um exercício prematuro, que deveria ser feito a partir do segundo semestre." Sob tal perspectiva, a gestora mantém a sua estimativa de 55 mil pontos para o Ibovespa até dezembro.
Lika Takahashi, a estrategista e coordenadora de análise de investimentos da Fator Corretora, também mantém o seu alvo para o Ibovespa em 51 mil pontos e ainda não pensa em revisões. Para ela, para que as ações partissem para outro nível de preços seria necessário que a economia global mostrasse uma recuperação rápida (em "V") a partir do segundo semestre, mas talvez seja cedo para imaginar que questões relevantes - como as necessidades adicionais de capital dos bancos americanos - serão resolvidas num curto espaço de tempo. "Até agora as notícias só apontam que, em em vez da Grande Depressão 2, vamos ter a Grande Recessão 1." Mesmo que a reação venha, a atividade não volta aos níveis observados entre 2003 e 2007, ressalva. "Não dá para confundir o início de um processo de desestocagem com uma recuperação vigorosa, a economia global não vai ter o ritmo que se viu no ciclo passado." Nesse sentido, a decepção dos investidores pode vir das taxas de crescimento econômico e dos resultados das empresas.
O seu modelo de projeção para o índice considera uma retração de 5% nos lucros das companhias brasileiras em 2009, mas o baque pode ser maior, admite. O câmbio, que vinha ajudando as exportadoras, já não está jogando tão a favor e o aumento dos índices de inadimplência pode prejudicar tanto empresas não-financeiras quanto os bancos. A Klabin, por exemplo, ao apresentar seus resultados na terça-feira, revelou ter feito provisões adicionais para devedores duvidosos, medida que tem impacto na linha final da demonstração de resultados.
Fonte: Valor Online-Adriana Cotias
8 de maio de 2009
Estrangeiro compra e local fica na plateia
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