Os fundos de previdência perderam US$ 5,2 trilhões com a crise financeira. "A situação dos administradores no Brasil é melhor do que no resto do mundo atualmente. Mas no futuro podem ter problemas", disse Jaqui Parchment, diretora de investimentos da Mercer no Canadá. Ela falou da "Gestão de investimentos em tempos de crise: Experiência internacional da crise junto aos fundos de pensão" no 5º Congresso da Anbid.
Os americanos, que sofreram a maior parte da perda mundial, terão de trabalhar entre 2 anos a 15 anos a mais para recuperar o patrimônio da poupança previdenciária. Muitos fundos estão deficitários, principalmente aqueles de benefício definido, onde se garante rendimento fixo. Mas não é de hoje que os fundos de aposentadorias fechados buscam solucionar riscos trazidos pela vida moderna.
A crise apenas veio juntar-se à queda das taxas de juros, que reduz a expectativa de poupança futura projetada, a longevidade e a opção dos casais de ter menos ou nenhum filho. Esses fatores significam riscos para os fundos, além de custos e problemas sociais no futuro para todos.
Na tentativa de ter uma solução ou apenas mitigar tais riscos, governos, empresas e funcionários precisam estar conscientes do problema para juntos encontrarem uma solução, recomenda a consultora. Antes, a pessoa trabalhava 30 anos, aposentava-se e recebia por cerca de dez anos um benefício financeiro, seja social, de uma empresa privada ou fruto de uma poupança própria. Ou dos três, para os mais afortunados.
Com avanços na tecnologia, principalmente na medicina, e também de hábitos saudáveis, agora se trabalha 30 anos e é preciso ter dinheiro para viver mais 30 anos. "Esse efeito faz com que as contas não fechem mais nos fundos de aposentadoria", diz. Em razão disso, governos empurram a população para fundos privados. Em dezembro, a Mercer fez uma pesquisa para saber o que os administradores pretendem fazer para cobrir o déficit dos fundos para terem dinheiro suficiente para pagar as obrigações assumidas com os funcionários ao longo da vida.
A saída para o problema não é simples, diz a consultora. Começa com a conscientização de que é preciso pensar mais no assunto e ter coragem para mudar. Depois, há basicamente três passos: tentar mudar as estratégias dos fundos, aumentar as contribuições ou cortar benefícios. Todas geram conflito e quanto mais conscientes estiverem do problema os participantes e os administradores dos fundos mais conscientes dos riscos, mais se conseguirá mitigar os problemas futuros.
Segundo a pesquisa da Mercer, a maioria dos executivos não ficaram satisfeitos em ter de aumentar os aportes ou cortar os benefícios. A maioria dos entrevistados informou estar efetuando mudanças na estratégia de investimentos dos fundos para reduzir o "gap".
Entre as alterações citadas estão a tercerização de uma fatia maior da administração própria dos fundos; cortar custos; buscar as melhores oportunidades de investimento, equilibrando riscos e rentabilidade e investir na comunicação com o participante do plano, para que ele tenha condições de decidir melhor como aplicar as suas reservas financeiras diante de tantas opções de fundos. Ou seja, dividindo com o participante o risco do investimento.
No Brasil, o resultado da pesquisa surpreendeu. Em relação à crise, os fundos de previdência pouco perderam patrimônio, segundo dados acumulados em 2008. E os que perderam já recuperam boa parte da rentabilidade com a alta do mercado acionário brasileiro acumulada até maio deste ano.
Em razão disso, a resposta "esperar para ver como fica" foi a mais citada em pesquisa realizada pela Mercer com cerca de 200 executivos presentes a um evento sobre previdência realizado este mês, em São Paulo. Educação financeira é a principal prioridade dos administradores brasileiros. "É preciso conscientizar as pessoas hoje para minimizarem o risco de ter os problemas que muitos fundos americanos enfrentam hoje", diz.
Robert Dumas, especialista da Mercer, é um dos executivos que compõe o grupo formado por representantes do governo, da OCDE e outras entidades, cujo desafio é traçar como estará a aposentadoria em 2020. O primeiro cenário é "Os vencedores e o resto". Ou seja, um grande crescimento global atrasará as reformas, mantendo os sistemas oficiais generosos. No entanto, o déficit do sistema oficial é mantido, forçando os governos a empurrar a população para uma poupança individual.
Neste cenário, as pessoas mais qualificadas terão um plano privado administrado com um grau acentuado de sofisticação de riscos e retorno, e os menos qualificados teriam o beneficio mínimo do governo.
"Todos no mesmo barco" é o segundo cenário. Crescimento moderado, retorno sobre capital mais baixo e busca por instrumentos moderadores seria o tom deste período. O terceiro cenário seria "Cada um por si". Neste mundo, o grupo de estudo projeta uma prolongada recessão, até 2020, dificuldade fiscal com os serviços de pensão e de saúde públicos, exigindo medidas agressivas dos governos para passar a responsabilidade para os indivíduos. A oferta de uma garantia mínima por parte dos governos e enfoque para melhorar a educação financeira para a população poupar mais seriam as prioridades de governos e empresas para ter um futuro com menos custos sociais envolvendo a aposentadoria e saúde da população.
Fonte: Denise Bueno - Valor Online
30 de maio de 2009
Longevidade e crise forçam modificação de estratégias
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